Parecia até, numa primeira análise mais minuciosa, que os seu olhar cor do mar se poderia alienar aos projetos. Aparentava, até, espaço para captar a luz dos instantes. Sacudia os problemas e respirava ideias!… Espremida, até vertia algum suco. Mas, na verdade, era apenas uma sombra da essência.
Julgava-se
boa como o pão, contudo, não o era, em nenhum dos redutos. Cada vez que me visitava,
a janela entreaberta do gabinete deixava passar um bafo quente, denso, quase
sempre asfixiante. Um hálito espesso. Com elevado desânimo, prestes a lançar a
toalha de combate ao chão, queixa-se constantemente do parceiro, mormente do
seu desabrigo. Desabrigo ou desamparo?? Será que passara fome, a pobre coitada!?...
O que quer da vida uma “mulher” que partilha, sistematicamente, com “estranhos” as
tentativas de derrube ao seu mais que nada??? Leguminosas? Julga-se que as suas
duras contendas se deviam aos seus prolongados serões na academia dos sopros e
nas esplanadas da Olá.
Os
seus desaires tornavam-na faminta. A sua suave cor de pele, que, nalgumas
tardes, aquecera – num encoberto recanto – as superiores mãos, revelaram-se umas “aspas”
sem título, tal como, de resto, o seu restante cortiço. Era jumenta, mas nem
sempre parva. Percebera o lance e rapidamente açaimou-se. Mesmo assim, a sua
esperança da manhã tornou-se frágil. Decadente, q.b!
As
singularidades da rapariga ruiva revelaram-se, num abrir e fechar de olhos. Tentou,
por isso, sucessivos ensaios toscos e grosseiros de amainar. Sem sucesso. Julgava-se
mais importante que as moscas atrás do carro do petróleo.
A
livrólica nunca fora uma exímia comunicadora, mas ao seu espelho suplicava-lhe:
Dis moi, oui! Uau, como é bom sonhar acordada!... Só isso? Na verdade,
andou na mesma escola e até tinha “desformação” superior, mas não tivera os
mesmos professores, por isso, nunca seria capaz de ser como a Soberana. Os seus
maléficos esforços, apoiados pela sua comadre com a mesma ambição, revelaram-se
infrutíferos. Não convenceram o capitão e trambolharam de fronha no tapete.
Inicialmente,
parecia apenas convencer pelos seus sistemáticos abalroamentos, cheios de histéricas
histórias de vida, que interrompiam os diálogos construtivos em sede de hipotética
construção. No encontro que a poderia transportar para mais um dos muitos labores
que tivera, embora todos eles submersos em falhados desaires, levou nas suas enodoas
mãos um romance que mais parecia o calhau de um castelo medieval. Era um “pormaior”
tentar mostrar a sua raça. Importava continuar a viver de ilusões e tentar
partilhá-las. Provocar até, quiçá, um balayage, ao bom estilo da
capoeira, a quem lhe tentava abrir o postigo de mais uma oportunidade.
Pelas
suas parcas aprendizagens, apregoava-se, no bico das suas botinhas sem rasto,
uma fidedigna livrólica, com imensas coisas lidas, escritas e até publicadas. Onde?
Quando? O quê? No Fastebocas? Em suma, nunca fora grande coisa. Parecia aliás
um automóvel com os faróis nos mínimos, a marrar para o chão. Excessivamente
limitada?? Claramente!... O seu travão inato só aliviava quando indagava, com a sua
tufosa alma, a seara alheia. A escrita não era a sua praia. Só a escrita? Somente ao espelho, imaginava na sua oca cabeça que era brilhante como uma estrela. Estrela? Cadente? E
os desejos, teve tempo de os pedir?? Continuava a brigar, só algumas vezes (há
que ser incoerente), com o acordo das letras. Quais letras? As que servem para
compor os caldos?? Ralhava com a sintaxe e bofeteava, com agressividade, a sua pobre
semântica. Não é, “por que”? Não será, “de mais”? Por amor a Deus, “pára”!? Ou
será, “para”!?
Já
lavaste as mãos antes de ir para a mesa? Pega nos talheres como deve ser!...
Não puxes o rabo ao Amendoim, nem as orelhas à Nutella! Bolas!... Não batas no
vidro do aquário, a Yoda e o Nodi estão a dormir!…
Pelos
caminhos da salvação, sempre quisera voar com as asas chumbadas. Quando tentara
nadar no seu mar de lama, apercebera-se que só escamava. E o resto? Barbatanas,
houve? Faltava-lhe o mais importante: aquilo que alimenta a locomoção!
O
último andar do prédio onde trabalhava fora sujeito a obras. Beschädigt,
ficou o elevador que a elevava…Muito mauvais para quem acabara de ser
atropelada pelo bibliobus.
Restava
à livrólica, a singular donzela sem pasta, arregaçar as calças, atravessar a maléfica
cheia e tentar vencer o mar. Infelizmente, nunca conseguira galgar as bem-aventuradas
escadas de emergência que a levariam ao cume.
As
folhas do outono começaram a cair das despidas árvores. Já sem fauna, perdeu a
sombra, deixou de ouvir o cio das árvores e a intimidade das flores. Partira o seu
micológico paraíso. Em poucas semanas, e em cima da arquibancada, jaziam duas avermelhadas
cartolinas da cor do sangue. O seu! E nada mais!!...
Mário Gonçalves

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