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sábado, 27 de maio de 2023

Literatura mundial perdeu com a morte do escritor Martin Amis

Com a morte aos 73 anos, nos Estados Unidos, de Martin Amis, filho de Kingsley Amis, perde a literatura mundial um dos seus mais inspirados e implacáveis narradores, que nunca recuperou totalmente do facto de ser filho de um escritor muito influente.

Escreveu ‘Experiência’, um brilhante livro de carácter autobiográfico, e o livro ‘Koba, o Terrível’, um texto poderoso sobre Estaline e o Estalinismo, que vale a pena ler sobretudo nos dias de hoje, enquanto Putin tenta imitar o ditador vindo da Geórgia que criou o Gulag.

Martin Amis faleceu no dia 19 de Maio de 2023.

By Opinião / José Jorge Letria CM

domingo, 23 de abril de 2023

sábado, 3 de abril de 2021

KRONIKANDO: Eternas viagens de uma livrólica


Parecia até, numa primeira análise mais minuciosa, que os seu olhar cor do mar se poderia alienar aos projetos. Aparentava, até, espaço para captar a luz dos instantes. Sacudia os problemas e respirava ideias!… Espremida, até vertia algum suco. Mas, na verdade, era apenas uma sombra da essência.

Julgava-se boa como o pão, contudo, não o era, em nenhum dos redutos. Cada vez que me visitava, a janela entreaberta do gabinete deixava passar um bafo quente, denso, quase sempre asfixiante. Um hálito espesso. Com elevado desânimo, prestes a lançar a toalha de combate ao chão, queixa-se constantemente do parceiro, mormente do seu desabrigo. Desabrigo ou desamparo?? Será que passara fome, a pobre coitada!?... O que quer da vida uma “mulher” que partilha, sistematicamente, com “estranhos” as tentativas de derrube ao seu mais que nada??? Leguminosas? Julga-se que as suas duras contendas se deviam aos seus prolongados serões na academia dos sopros e nas esplanadas da Olá.

Os seus desaires tornavam-na faminta. A sua suave cor de pele, que, nalgumas tardes, aquecera – num encoberto recanto – as superiores mãos, revelaram-se umas “aspas” sem título, tal como, de resto, o seu restante cortiço. Era jumenta, mas nem sempre parva. Percebera o lance e rapidamente açaimou-se. Mesmo assim, a sua esperança da manhã tornou-se frágil. Decadente, q.b!

As singularidades da rapariga ruiva revelaram-se, num abrir e fechar de olhos. Tentou, por isso, sucessivos ensaios toscos e grosseiros de amainar. Sem sucesso. Julgava-se mais importante que as moscas atrás do carro do petróleo.

A livrólica nunca fora uma exímia comunicadora, mas ao seu espelho suplicava-lhe: Dis moi, oui! Uau, como é bom sonhar acordada!... Só isso? Na verdade, andou na mesma escola e até tinha “desformação” superior, mas não tivera os mesmos professores, por isso, nunca seria capaz de ser como a Soberana. Os seus maléficos esforços, apoiados pela sua comadre com a mesma ambição, revelaram-se infrutíferos. Não convenceram o capitão e trambolharam de fronha no tapete.

Inicialmente, parecia apenas convencer pelos seus sistemáticos abalroamentos, cheios de histéricas histórias de vida, que interrompiam os diálogos construtivos em sede de hipotética construção. No encontro que a poderia transportar para mais um dos muitos labores que tivera, embora todos eles submersos em falhados desaires, levou nas suas enodoas mãos um romance que mais parecia o calhau de um castelo medieval. Era um “pormaior” tentar mostrar a sua raça. Importava continuar a viver de ilusões e tentar partilhá-las. Provocar até, quiçá, um balayage, ao bom estilo da capoeira, a quem lhe tentava abrir o postigo de mais uma oportunidade.

Pelas suas parcas aprendizagens, apregoava-se, no bico das suas botinhas sem rasto, uma fidedigna livrólica, com imensas coisas lidas, escritas e até publicadas. Onde? Quando? O quê? No Fastebocas? Em suma, nunca fora grande coisa. Parecia aliás um automóvel com os faróis nos mínimos, a marrar para o chão. Excessivamente limitada?? Claramente!... O seu travão inato só aliviava quando indagava, com a sua tufosa alma, a seara alheia. A escrita não era a sua praia. Só a escrita? Somente ao espelho, imaginava na sua oca cabeça que era brilhante como uma estrela. Estrela? Cadente? E os desejos, teve tempo de os pedir?? Continuava a brigar, só algumas vezes (há que ser incoerente), com o acordo das letras. Quais letras? As que servem para compor os caldos?? Ralhava com a sintaxe e bofeteava, com agressividade, a sua pobre semântica. Não é, “por que”? Não será, “de mais”? Por amor a Deus, “pára”!? Ou será, “para”!?

Já lavaste as mãos antes de ir para a mesa? Pega nos talheres como deve ser!... Não puxes o rabo ao Amendoim, nem as orelhas à Nutella! Bolas!... Não batas no vidro do aquário, a Yoda e o Nodi estão a dormir!…

Pelos caminhos da salvação, sempre quisera voar com as asas chumbadas. Quando tentara nadar no seu mar de lama, apercebera-se que só escamava. E o resto? Barbatanas, houve? Faltava-lhe o mais importante: aquilo que alimenta a locomoção!

O último andar do prédio onde trabalhava fora sujeito a obras. Beschädigt, ficou o elevador que a elevava…Muito mauvais para quem acabara de ser atropelada pelo bibliobus.

Restava à livrólica, a singular donzela sem pasta, arregaçar as calças, atravessar a maléfica cheia e tentar vencer o mar. Infelizmente, nunca conseguira galgar as bem-aventuradas escadas de emergência que a levariam ao cume.

As folhas do outono começaram a cair das despidas árvores. Já sem fauna, perdeu a sombra, deixou de ouvir o cio das árvores e a intimidade das flores. Partira o seu micológico paraíso. Em poucas semanas, e em cima da arquibancada, jaziam duas avermelhadas cartolinas da cor do sangue. O seu! E nada mais!!...

Mário Gonçalves

terça-feira, 19 de março de 2019

Opinião: Pêro Vaz de Caminha escreveu involuntariamente a certidão de nascimento de um país

Pêro Vaz de Caminha

Pêro Vaz de Caminha ficou na História como o escrivão-mor da armada descobridora de Pedro Álvares Cabral; e ficou na literatura como o autor da Carta a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil. 

Entre a História e a literatura, no seu caso, a diferença é inexistente: ele, involuntariamente, fez da História literatura – e poesia. Não o esperava, certamente, ao sair de Belém, junto ao Tejo, em 1500, em direção ao desconhecido – o que havia para além do horizonte? 

É isto mesmo que sente um escritor, ao pôr-se a escrever um livro: o que vai encontrar página após página? Que maravilhas? Que terrores? Que perigos? Que triunfos sobre si mesmo?

O escrivão-mor não era conhecido por ser um poeta. Não era conhecido por querer escrever uma epopeia. Era um homem entre os demais, que tinha a incumbência de relatar o que ia vendo, numa viagem histórica que acabou por pôr o Brasil no mapa.

Involuntariamente ele escreveu a certidão de nascimento de um país, que, caso raro, senão único na História do mundo, teve uma certidão de nascimento. Estava-se a 22 de abril, chuviscava sobre uma extensão de praias que pareciam sair de um sonho, os tripulantes da armada puseram-se a dançar e a folgar com indígenas praticamente nus, era como se se recuasse a um princípio do mundo e a História dos homens ficasse suspensa na eternidade. 

Pêro Vaz de Caminha, involuntariamente, era poeta, ao descrever o que via, e os seus escritos, ao serem enviados para o rei D. Manuel, em Portugal, rei conhecido por «O Venturoso», eram um poema dos mais belos já saídos da mente humana – porque filho da espontaneidade, e de um momento fadado a tornar-se eterno, na memória dos homens. Raramente, ou nunca, a História e a poesia tiveram um casamento tão feliz!

Apetece chamar a Pêro Vaz de Caminho o Alberto Caeiro da nossa aventura histórica ligada às navegações – ele não premeditou nada, não intelectualizou nada, e no entanto da sua pena saíram das mais belas páginas da História da humanidade. O Brasil deve-lhe a certidão de nascimento, este Brasil tão ligado à natureza, este Brasil que teve na alma índia as suas origens... E teve na dança, no espanto perante o desconhecido, na confraternização entre seres humanos que tinham estado separados por milhares de anos e por um oceano, o seu começo miraculoso... O tempo deixa de existir perante o milagre da poesia...
Jorge Chichorro Rodrigues

quarta-feira, 13 de março de 2019

Opinião: a volta ao mundo e a incompetência dos espanhóis

Graça Fonseca, Ministra da Cultura (Foto JN)
A direção editorial da Revista Livros & Leituras está solidária com o Ministério da Cultura de Portugal. Também nós achamos que o facto de terem sido os espanhóis a reivindicarem a autoria da primeira volta ao mundo em vez dos portugueses se trata de uma polémica artificial, sem qualquer fundamento lógico. 

Aliás, mesmo ao ser verdade, considero que a Real Academia de História de Espanha deveria esconder este alegado estudo sem qualquer fundamento. Mesmo que ele fosse verdadeiro, isto só prova que tiveram de ir em busca de um português para dar a primeira circum-navegação, não tendo ninguém hábil em Espanha para o fazer. 

É, no mínimo, passar um atestado de incompetência aos navegados espanhóis, muitos com provas dadas, grande mérito e brio. 
O Diretor 
Mário Gonçalves

domingo, 10 de março de 2019

Para Alberto Caeiro, escrever era deambular sem se preocupar com a esquerda e a direita



Somos sonhados, apetece dizer, quando falamos sobre artes e artistas, ou sobre escritores e literatura. Refletimos algo mais alto, que aparece no que criamos e escrevemos.

Somos apanhados de surpresa, captados num momento das nossas existências, e quanto mais «espontânea» é a arte, quanto mais ela nos mostra indefesos perante o destino, mais ela é elevada.

A arte é o nosso deus desconhecido, e no caso da literatura estamos perante uma arte intelectual – o intelecto desvia-nos em grande parte da espontaneidade, da pureza da origem.

Para Fernando Pessoa, altamente intelectual, o mestre era Alberto Caeiro, porque, de todos os seus heterónimos, era este o mais «espontâneo», o que estava mais perto da origem do mundo, que está na natureza. Alberto Caeiro, o pastor que escrevia com erros, que não intelectualizava o que escrevia, ou, mais precisamente, intelectualizava o menos possível, era por um lado uma «vítima» de algo mais alto, que o ultrapassava (a inspiração de um momento), mas era por outro lado senhor de cada palavra e de cada verso que escrevia; era inteiro, porque não se dividia em pensamentos artificiais nem em filosofias vãs – tudo nele era essencial, como o sol, a lua, os campos, as flores. Ele, de certo modo, era o próprio sol, a própria lua, como era os campos e as flores. Ele fazia literatura, mas era como se a não fizesse, ao negar radicalmente os deuses e o transcendente era como se a si mesmo se assumisse como deus, e abolindo o tempo se fazia eterno. E realmente, ao lermos os seus versos, falsamente ingénuos, é como se lêssemos a própria eternidade que existe nos elementos da natureza; Caeiro procurava plasmar-se com esta, ao escrever – e escrever era para ele deambular, sem se preocupar com a esquerda e a direita, o mais alto e o mais baixo; escrever era o puro ato de respirar, sem pensar que se respira.

Claro que este heterónimo não deixava de ser um artifício de Fernando Pessoa, talvez o mais elaborado de todos – atrás da ingenuidade dele, estava a arte do ortónimo, que era dotado da mais sublime capacidade de «trabalhar» os mistérios que lhe eram enviados do além.

Jorge Chichorro Rodrigues

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Opinião: Publicar com as moedas que temos no bolso


Rui Caeiro - DR Jornal Público

Há dias, na página oficial do Instagram da Revista Livros & Leituras, partilhei uma passagem de uma obra de Rui Caeiro, enviada por uma das nossas redatoras, a Joana Gonçalves.

Lembrava que Rui Caeiro, infelizmente já ausente do mundo dos vivos, foi pouco conhecido. Poeta, editor e tradutor. Nasceu em Vila Viçosa e foi viver para Oeiras, a cidade onde existe um belo parque que homenageia os poetas.

Rui Caeiro quis viver assim, no anonimato. Editou quase sempre os seus livros num formato de edição de autor, sem a retaguarda, salvo algumas exceções, do marketing editorial.

Podia aqui citar muitos Caeiros que há em Portugal e no mundo, mas não o faço porque me iria esquecer de homenagear muitos homens e mulheres que escrevem bem e publicam com as poucas moedas que têm no bolso.

Mário Gonçalves